Home Data de criação : 07/09/23 Última atualização : 08/11/14 14:04 / 48 Artigos publicados
 

“Conhece-te a ti mesmo”  escrito em sexta 14 novembro 2008 14:04

“Conhece-te a ti mesmo”

Roberto D´arte

 

            Normalmente atribuída ao filósofo grego Sócrates (479-399 a.C.), a frase “conhece-te a ti mesmo” é, na verdade, a inscrição que se via na entrada do Oráculo de Delfos. Neste local, dedicado a Apolo (na mitologia grega, o deus da luz e do sol, da verdade e da profecia), buscava-se o conhecimento do presente e do futuro por intermédio de sacerdotisas.

          Na filosofia socrática o “conhece-te a ti mesmo” se tornou uma espécie de referência na busca não só do auto-conhecimento, mas do conhecimento do mundo, da verdade. Para o pensador grego, conhecer-se é o ponto de partida para uma vida equilibrada e, por consequência, mais autêntica e feliz.

          Nessa visão, maturidade não é um desdobramento natural do tempo vivido, e sim resultado da vontade, do esforço de cada indivíduo em conquistá-la. Exatamente por isto é possível encontrar pessoas vazias em plena velhice e, ao contrário, mentes sábias no auge da juventude.

          Como o autoconhecimento não é tarefa das mais fáceis, uma parcela significativa da humanidade prefere se debruçar à janela para espionar ou encontrar defeitos no outro. É muita pretensão de alguém usar as pessoas como alvos de seu olhar e sua língua quando pouco ou quase nada se sabe de si mesmo!

          Sempre que me deparo com crimes chocantes, como o de Lindenberg Alves (que recentemente seqüestrou e matou a ex-namorada, Eloá Pimentel), o de Suzane von Richthofen (que ajudou a matar os próprios pais) ou o do jornalista Pimenta Neves (que também assassinou a ex-namorada), penso como eram estas pessoas na infância. O que faziam, de que brincavam, o que gostavam, o que não gostavam, como se relacionavam com os pais e com os amigos, quais eram suas angústias, seus sonhos... Dados que talvez pudessem dar alguma pista sobre as escolhas que fizeram mais tarde.

          Será que realmente eles se conheciam? Será que eles e tantos outros que tomaram os mesmos rumos tiveram a oportunidade de encontrar respostas para seus questionamentos? Lindemberg, Suzane e Pimenta Neves não cometeram crimes por questões ligadas a privações sociais, como a fome, a falta de moradia ou o desemprego. Muito menos por desconhecimento de valores éticos, já que os três tinham discernimento sobre o assunto.

          Por mais que uma análise nesse sentido requeira algumas variáveis, é possível afirmar que faltou lucidez mental aos criminosos mencionados aqui. Faltou a razão, que talvez os deixasse menos vulneráveis moral e psicologicamente.

          Não se conquista tal lucidez mental senão através do autoconhecimento. Se os pais desejam ver seus filhos crescerem com mente sadia, o melhor remédio é incentivá-los a se conhecerem melhor a cada dia. Isto vale tanto para o campo racional quanto para o emocional. As repercussões práticas de cada um deles vão depender de quão harmonizados eles estiverem.

          Indo agora além da Filosofia e mesmo do campo religioso, acredito que o autoconhecimento é obtido através de caminhos racionais e emocionais, mas, muito mais ainda, através da espiritualidade. Excesso de razão pode desembocar em orgulho e prepotência; excesso de emoção pode provocar desequilíbrio e desencontros. A harmonia espiritual costuma ser o fiel da balança entre este dois extremos que habitam em cada um de nós.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 14 de novembro de 2008)

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Precisa-se de outra Terra  escrito em sexta 14 novembro 2008 13:04

Precisa-se de outra Terra

Roberto D´arte

      Daqui a algumas décadas, antes mesmo de naves tripuladas alcançarem outros planetas da vizinhança, certamente teremos tecnologia suficiente para enviar aos recantos da nossa galáxia uma espécie de mini-classificado com o anúncio “precisa-se de outra Terra”. Embora algo assim só se veja no cinema, em alguma comédia de ficção científica, a previsão é absolutamente real.

      A Organização Não-Governamental WWF – Worlwide Fund for Nature (Fundo Mundial para a Natureza) publicou recentemente um estudo com uma conclusão assustadora: “ao ritmo de consumo atual, a humanidade, para satisfazer suas necessidades no início da década de 2030, vai precisar de dois planetas”.

      Em seu relatório “Planeta Vivo 2008”, a WWF alerta que a marca ecológica da humanidade, que avalia o consumo de recursos naturais, já superou em 30% as capacidades do planeta de se regenerar. Seus pesquisadores ressaltam que a pressão do ser humano sobre a Terra dobrou nos últimos 45 anos por dois motivos: crescimento demográfico e aumento do consumo individual.

       Um dos trechos desse relatório não deixa dúvidas: “a superexploração está esgotando os ecossistemas e os desperdícios se acumulam no ar, na terra e na água. Como resultado, o desmatamento, a escassez de água, a redução da biodiversidade e a desordem climática, causadas pela emissão de gases que provocam o efeito estufa, colocam cada vez mais em risco o bem-estar e o desenvolvimento de todas as nações".

       Dia após dia recebemos “pedidos de socorro” ou mesmo “recados malcriados” do nosso planeta, que, em todas as suas dimensões micro e macro, pulsa e vive. Se o predador-humano acha que pode provocar tantos danos à Terra e sair impune, já se pode ver que isto é impossível. Ele pagará o preço mais alto que pode ser cobrado de uma espécie: sua extinção.

       Bom seria se o Criador se apiedasse de parte de suas criaturas, colocando-a em “Arcas-de-Noé” para, depois do “dilúvio”, recomeçar aqui mesmo. Afinal, muitas pessoas entenderam a essência de sua evolução nesta vida e têm vontade de acertar. Estas não merecem sucumbir ao lado dos malfeitores da humanidade.

         Ingênuo ou não, todo o meu otimismo com a nossa raça advém da certeza de que há aqueles que perseguem o Bem (de si próprio, do outro, do planeta...). Do contrário, sequer valeria a pena sobreviver para apenas assistir às tragédias anunciadas para o futuro, e já iniciadas há décadas.

          Como o tempo de uma pessoa é ínfimo se comparado com o do planeta, como um todo, talvez as gerações que nos substituirão saibam valorizar cada palmo de terra onde pisa, cada fruto colhido, cada fonte de água, cada ser vivo ao seu redor. Quem sabe no futuro nossos descendentes sejam mais inteligentes para não povoar tanto a Terra; para dividir melhor o chão, que nunca foi nem nunca será seu; para compartilhar com seus semelhantes suas dificuldades e conquistas; para administrar suas vidas sem exercer qualquer tipo de poder sobre o próximo. O mapa deste caminho está aí para quem quiser ver.

 (publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 7 de novembro de 2008)

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Honestidade não basta  escrito em sexta 31 outubro 2008 13:55

Honestidade não basta

Roberto D´arte


      Dia desses ouvi um fragmento de conversa numa praça de Viçosa-MG que confirmou o que eu já teorizava há bastante tempo. Muitas pessoas escolhem e avaliam seus representantes do Executivo e do Legislativo única e exclusivamente com base no requisito “honestidade”.

      Como estava caminhando a passos largos, pude ouvir apenas duas frases da conversa de dois senhores de meia idade, com jeito de serem pessoas muito simples. Um deles disse num nítido tom de deboche: “esse prefeito não está fazendo nada na cidade”. O outro imediatamente retrucou: “mas ele pelo menos é honesto!”

      Mesmo sem ter conseguido ouvir o restante da conversa, tive uma prova do quanto a honestidade continua sendo uma referência importante para as pessoas quando o assunto é administração pública. Se, por um lado, tal preocupação reflete um aspecto muito positivo no modo de pensar da população, por outro revela o quanto ainda precisamos amadurecer em nossa percepção do que seja ideal em um prefeito, governador, presidente da República e nos legisladores em suas diversas instâncias.

      Não é de se estranhar a valorização da honestidade num país com tanta tradição no campo da corrupção; num país em que a devolução de dinheiro achado vira reportagem na TV em horário nobre. Sou do tempo em que ser honesto não era mais do que uma obrigação; que a retidão de caráter já deveria estar implícita nas relações familiares e sociais.

     Não tive que aprender esses conceitos elementares nos primeiros anos de escola; muito menos na época de faculdade, em que tive acesso às grandes teorias filosóficas que alicerçaram o pensamento ocidental nas suas mais variadas ciências. Aprendi com meu saudoso pai e com a minha querida mãe – ambos com escolaridade que não ultrapassou a 4a série.

      Partindo-se, então, do pressuposto de que todas as pessoas devem ser honestas, o que se espera de um administrador público é que ele saiba, de fato, administrar. Recentemente, um trabalho acadêmico desenvolvido na Faculdade de Viçosa (FDV) por três estudantes do 3o período de Administração de Empresas (Débora Dias da Silva, Luciana Moraes Almeida e Pékos Ryokai Monteiro), orientados pela professora Maria Inês do Carmo, ressaltou o tema "A inserção do administrador profissional nas prefeituras municipais".

      O estudo, realizado em Viçosa e em outros seis municípios da microrregião, buscou obter informações sobre o conhecimento e a percepção dos prefeitos ou chefes do Poder Executivo local em relação ao profissional de Administração e sua inserção nas organizações municipais. A conclusão foi taxativa: “na nossa microrregião é exígua ou praticamente diminuta a acepção da maioria dos dirigentes sumos do Poder Executivo Municipal, questionados quanto à importância do administrador profissional, tal como sua função na administração pública. Em apenas 14,29% dos sete municípios pesquisados identifica-se a presença do administrador profissional. Grande parte das funções e atribuições pesquisadas nas Prefeituras da região é ocupada por pessoas não qualificadas, ou, até mesmo, pelos próprios prefeitos”.

      Certamente essa é a realidade da maioria dos municípios brasileiros. Também é certo que, se por acaso, a maioria dos prefeitos assumisse a direção de empresas privadas, sob as leis e prerrogativas administrativas que as regem, teríamos uma avalanche de falências após quatro anos. Para administrar, honestidade não basta!

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 31 de outubro de 2008)

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Quem ama não mata  escrito em sexta 24 outubro 2008 13:24

Quem ama não mata

Roberto D´arte

        A trágica morte da adolescente Eloá Cristina Pimentel, que comoveu o Brasil na semana passada, traz uma história que certamente seria referência para a minissérie “Quem Ama Não Mata”. O programa, produzido pela Rede Globo em 1982, teve sua origem na onda de crimes passionais que ocorriam no país na década de 1970.

         O episódio mais comentado da minissérie foi beseado num dos casos mais famosos do país: o assassinato da socialaite Ângela Diniz, de 32 anos, pelo próprio namorado – Raul Fernandes do Amaral Street. Em 30 de dezembro de 1976, Doca Street (como o assassino era conhecido na alta sociedade carioca) matou com quatro tiros a chamada "Pantera de Minas" (apelido que Ângela Diniz ganhou por causa de sua beleza). A vítima deixou três filhos de um casamento anterior. Sua morte virou símbolo da luta pelo fim da violência contra as mulheres e fez surgir uma espécie de slogan deste movimento: quem ama não mata!

         No “Caso Eloá”, a comoção popular advém não apenas da grande repercussão que o seqüestro de Santo André teve na mídia nacional. Ela traz à tona uma história com personagens perfeitamente identificáveis por quaisquer pessoas em quaisquer nações do mundo: uma adolescente que termina um namoro com um rapaz mais velho, provocando nele uma crise aguda de ciúme e orgulho ferido.

         Na canção cujo título é exatamente “O Ciúme”, o cantor e compositor Caetano Veloso escreveu: “(...) o ciúme lançou sua flecha preta e se viu ferido justo na garganta. Sobre toda estrada, sobre toda sala, paira, monstruosa, a sombra do ciúme (...)”. De fato, homens e mulheres ciumentos existem aos montes em toda parte. Eles podem ser vistos em casamentos, namoros e mesmo nas relações familiares, em que pais possessivos têm ciúme dos próprios filhos. Em qualquer relação de ciúme há, pelo menos, dois ingredientes em comum: possessão e insegurança.

         Certamente existem graduações de ciúmes, assim como em todas as demais paixões humanas. Há, por exemplo, o chamado “ciúme patológico”. Mesmo não sendo psicólogo ou psiquiatra, é possível arriscar o palpite de que Lindemberg Alves se encaixe em tal definição. Atirar no computador de Eloá por saber que a ex-namorada o usava para manter ativo o seu site de relacionamentos, é um forte indício disto.

         Livros de psiquiatria trazem muitos casos clássicos de ciúme patológico. Um deles é o da paciente que marcava o pênis do marido, assinando-o no início do dia com uma caneta, e verificava a marca deste sinal no final do dia. O outro, tão ou mais doentio, revela o hábito de um homem que chegava a examinar as fezes da namorada, procurando possíveis restos de bilhetes engolidos.

         Especialistas no assunto ressaltam que uma pessoa ciumenta costuma verificar a todo tempo onde se encontra o “alvo” do seu ciúme; com quem ele disse que estaria. Como nunca estará segura, abre correspondências, descobre senhas de e-mails e ouve telefonemas; examina agendas de telefone celular, bolsos, bolsas, carteiras, recibos, roupas íntimas; segue o(a) companheiro(a) e até contrata detetives particulares. Em casos extremos, como o de Eloá, o ciumento patológico chega a sequestrar a quem diz amar e, se for preciso, tira a sua vida para que ela não possa ser de mais ninguém.

          Ciúme nunca foi e nunca será prova de amor. Amar, sim, é a única forma de fazer um amor florescer. Enquanto não for encarado como sinônimo de insegurança e possessividade, o ciúme será sempre um veneno corrosivo e só trará tristeza e dor.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 24 de outubro de 2008)

 

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Futebol, valores e alienação  escrito em sexta 17 outubro 2008 14:30

Futebol, valores e alienação

Roberto D´arte

          Antes que algum leitor pense que não adepto do futebol ou que seja um anti-flamenguista, afirmo que gosto deste esporte, sim, e que torço para o Flamengo desde criança. Com estas afirmações posso agora, bem mais à vontade, tecer severas críticas ao que considero o ápice da alienação de uma pessoa em torno de um tema que deveria estar inserido apenas no rol das diversões e entretenimentos.

          A torcida organizada do Flamengo lançou recentemente a campanha “Fica, Ronaldo" com o objetivo de arrecadar, ao menos, um milhão de reais para ajudar o rubro-negro carioca a contratar o “Fenômeno”. Antes de entrar no mérito do que considero uma mobilização absurda, vale ressaltar a idiotice criada pela mídia brasileira de designar Ronaldo Nazário com tal alcunha.

          Mesmo fora de forma e em recuperação, ele é um excelente jogador, sem dúvida alguma. No entanto está muito longe de ser fenômeno do que quer que seja. Aliás, Ronaldo, assim como diversos outros jogadores brasileiros de futebol que viraram celebridades da noite para o dia, não merece ser um modelo de desportista para as novas gerações. Farrista incorrigível, a ponto de viver metido em escândalos, ele é o verdadeiro exemplo do produto de luxo que a indústria mundial de ídolos cria, a todo momento, para faturar milhões.

        Figuras como Pelé, Zico, Ayrton Senna e Oscar (do basquete) estão em extinção. Bem sucedidos em suas carreiras, eles eram exemplos de determinação, hombridade e honra pelo que faziam e por tudo que representavam. As últimas gerações de jogadores de futebol, por mais que tenham conquistado títulos e prestígio profissional, representam a decadência de valores que existiam até o início da década de 1980, quando o amor pelo time do coração ou pela camisa verde-e-amarela valia mais do que os polpudos salários que passaram a ditar as regras.

        Voltando à campanha para Ronaldo ficar no Brasil e no Flamengo, seus organizadores querem vender uma camisa por 10 reais para ajudar o clube a contratar o jogador. A pergunta é: quantos torcedores envolvidos com esta iniciativa fariam o mesmo por alguma causa social? Quantos chegaram a doar algum valor para a campanha Criança Esperança, que ajuda a manter diversos projetos sociais em todo o país?

         Entre as diversas definições para a palavra “alienação” está a “falta de consciência dos problemas políticos e sociais”. Dizer que o futebol é um importantíssimo veículo educativo de inclusão social, está mais do que certo. Afirmar que ele é uma paixão nacional que nos abre portas e gera dividendos econômicos e culturais para a nação, também concordo plenamente. O que não dá para agüentar é a idolatria e a insanidade, oriundas da valorização excessiva a este esporte.

        Se tomarmos por base o orçamento anual somente dos clubes brasileiros da primeira divisão, daria para bancar inúmeros projetos sociais de largo alcance, que vivem a trancos e barrancos ou sequer chegam a sair do papel por falta de recursos financeiros. Para Ronaldo ficar no Flamengo eu não compro nem bala de dez centavos. Ao contrário, sou capaz de adquirir todas as camisas lançadas em prol de uma vida melhor para os que realmente necessitam.

(publicado no Jornal TRIBUNA LIVRE, Viçosa-MG, em 17 de outubro de 2008)

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